quarta-feira, 7 de junho de 2017

 
"Para minha surpresa, tenho de admitir, não sei quem sou. De maneira nenhuma... Fiz sempre o que me diziam. Tanto quanto me lembro. Tenho sido obediente, equilibrada, quase submissa. Afirmei-me uma ou duas vezes como rapariga mas a mãe castigava todos esses lapsos da convenção com severidade exemplar. Toda a minha educação teve como objectivo tornar-me agradável. Eu era feia e sem graça. Um facto de que era constantemente lembrada. Mas se guardasse os meus pensamentos para mim e fosse insinuante, o meu comportamento permitia recompensas. A verdadeira decepção começou na puberdade. Todos os meus pensamentos giravam à volta de sexo. Mas isto eu nunca contei aos meus pais, nem a ninguém, no que a isto diz respeito. Ser falsa e reservada tornou-se uma segunda natureza para mim. O meu pai queria que eu fosse advogada, como ele. Eu disse que queria ser actriz ou fazer outra coisa dentro do mundo do teatro mas eles riram-se de mim. Desde aí que passo a vida a fingir. Uma hipocrisia nas minhas relações com os outros. Com os homens. A mesma hipocrisia, uma tentativa desesperada para agradar. Nunca considerei o que quero. Apenas: que quer ele que eu pense? Não é altruísmo, como pensava, mas pura cobardia. Nasce do facto de ser ignorante quanto a quem sou. O nosso erro foi não nos libertarmos das nossas famílias e criarmos algo que valesse a pena, à nossa maneira."

Ingmar Bergman, em Cenas da Vida Conjugal (1973)

2 comentários:

  1. Há muitas coisas que percebo que não sou, mas dizer exactamente o que sou não consigo. Tento, dia a dia, ganhar o título de ser uma pessoa. E já não é pouco.

    Bom dia, Anouk:)

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  2. Pois não é... Precisamos viver respeitando a essência do que somos. Vivermos por nós, para nós. Assim, mesmo que a felicidade seja um sentimento fugidio, quando acontece é pleno porque emana do mais verdadeiro que há em nós.
    Boa noite, Legionário

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