sábado, 17 de junho de 2017

Quem julgas que és?



O que é sabes sobre a tua família? Quem foram os teus avós, bisavós? O que faziam, onde viveram, como morreram?

Nasci no Alentejo, no Alto Alentejo, numa vila que fica a meia hora do rio. Nascida, não criada. Saí com dois anos. O lugar é, portanto, para mim, um imaginário. Um lugar de reencontros e de festa. As vivências e dificuldades de viver numa aldeia, no interior, onde não faltam pedras mas falta gente é-me distante. Não tenho a presunção de saber o que é.

Depois de ver a Toca do Lobo, um documentário de Catarina Mourão, sobre Tomaz de Figueiredo, seu avô (que desvenda segredos familiares, mal entendidos e omissões que minaram muitos dos relacionamentos dentro da família) lembrei-me de algo que li há cerca de um ano, no Alentejo Prometido, de Henrique Raposo.

Não gostei do livro. Pelo retrato negro que faz da região mas sobretudo porque não conheço o tal Alentejo de que ele fala. Entre outras coisas, diz que é um lugar de colonização recente. Castelo de Vide, Marvão, Estremoz, Évora, Elvas são as cidades e vilas das minhas memórias.

E atribui como uma das característica dos alentejanos algo que acho ser transversal a todos nós – não gostamos de falar do passado, não esmiuçamos a nossa história. Basta pensar na Guerra Colonial. E não queremos saber de onde vimos, não porque não nos queiram contar mas porque não perguntamos. Se perguntarmos, há sempre alguém que nos contará, com muito amor. Temos é de estar dispostos a ouvir…

Recordo uma das últimas grandes noites de Natal. A nossa tia Tonha (irmã da minha avó e, portanto, tia da minha mãe e minha) desfiou para a sua neta, filha e sobrinhos pedaços escondidos da história da minha família. Que o meu trisavô era de Elvas e que todos os que vivem na aldeia com essa alcunha são meus primos, que morreu de um acidente com uma alfaia agrícola que terminou em gangrena. Que o meu bisavô viveu em Estremoz e foi corticeiro. E, de repente, já eram 6 da manhã. A conversa terminou com a promessa de a continuar noutra ocasião. Passaram-se já 5 anos. Não sei mais porque não fiz por saber.

E tu, sabes de onde vens?

2 comentários:

  1. Gostei desta tua frame pessoal... :)
    pois donde venho, sei talvez pouco, sei que não encontro no esqueleto o que me deviam ter deixado ficar: audácia, coragem, visão antecipada do futuro, um lado cuidador a par dop empreendedor... é o que encontro donde venho, infelizmente olho para dentro e, cá dentro, deixaram-me pouco disso, deixaram-me orgulho na história deles e no ser um pouco minha. Um dia gostava de conseguir escrever as duas histórias das duas famílias que me marcaram.
    Adorei este post, míuda, concluo que gosto quando escreves sobre o que quer que seja :))

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  2. Leio isto e penso - lá estás tu a menosprezar as tuas qualidades. Olha que vejo coragem e audácia em muitas das escolhas que fizeste! Isto de aceitar uma vidinha assim assim, sem a certeza do que virá depois a maioria não faz. Temos muitos exemplos disso à nossa volta. E, sim, gostava de ler essas histórias e acredito que as consegues escrever. Só te falta decidir fazê-lo. ;)

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