sábado, 15 de julho de 2017

As Grandes Coisas


"O ar encheu-se de Ideias e Coisas a Dizer. Mas em momentos como esses, só as Pequenas Coisas são ditas. As Grandes Coisas jazem lá dentro, não ditas."
Arundhati Roy em “O Deus das Pequenas Coisas”

Telegráfica ao telefone, sucinta por mensagens. Eles são o meio para resolver o prático, o prosaico, o irremediavelmente quotidiano da minha vida. Todas as conversas, deste modo, foram sempre alimentadas pelo outro lado da linha. E eu oiço (ou leio). Durante o tempo que quiserem, por quanto tempo me quiserem… Mas a conversa é sempre alimentada pelo outro lado. Todas as perguntas serão respondidas, usando o menor número de palavras.

Mais palavras só brotam com Tempo. E com o odor. E com o tacto. Mas sobretudo com o olhar. Aí, o pensamento organiza-se, a emoção materializa-se em algo que pode ser audível. E o discurso flui. Porque eu falo com o meu corpo, com as mãos, com o olhar e com o silêncio, também. E as outras pessoas falam-me a mim assim, também. E só a seguir as palavras surgem. E só a seguir as palavras dos outros passam a ter o seu significado amplo e completo.

Procuro os sinais escondidos por detrás do véu do discurso. Qual é a história por detrás da história? O que sentimos, o que dizemos, o desenho dos nossos corpos carregam a nossa alma. Quando alguém tem a minha atenção o foco é um close up que anula todo o enquadramento, todo o cenário. Porque para olhar mesmo é preciso captar as entoações do discurso, as nuances, os vestígios, as pequenas pistas do que jaz inconsciente, escondido ou amordaçado. E é isso que preciso olhar, para melhor compreender a multiplicidade do ser. 

Explicará, isto, o meu amor pelo cinema? Sobretudo, por aquele que fala sem voz? Por todos aqueles realizadores que criam com os seus actores, com o cenário, com a fotografia uma linguagem feita de luz e sombra?
 
 
Os Incompreendidos, François Truffaut (1959)
 
 
 

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