terça-feira, 4 de julho de 2017

I, Daniel Blake

Quando aceitamos que as pessoas sejam reduzidas a números, processos, questionários, protocolos a seguir, é assim tão surpreendente que a nossa humanidade fique esmagada na pilha de papéis na secretária de alguém? Ou melhor, agora, no século XXI, nos uns e zeros de uma qualquer aplicação informática?

 
 

Daniel Blake é um carpinteiro de meia-idade que está doente. O seu coração cedeu e precisa de repouso. Mas o “sistema” não o considera doente o suficiente. Ouvimo-lo, ao telefone, a tentar explicar a um operador, vezes sem conta, que não está apto a trabalhar mesmo que o questionário diga o contrário.

Todas a tentativas subsequentes que fará para dialogar com a burocracia do Estado (In)Social são frustradas porque ninguém está lá para o ouvir.
Preencha o formulário, por favor. Está disponível na internet. Mas Daniel só conhece um processador de texto, o lápis.
 
Pode ser um filme previsível mas é-o por qualquer defeito do argumento ou porque já ouvimos esta história por aí?
Algures, a meio, este filme contém uma das cenas pungentes que alguma vez vi, a de uma mulher a abrir uma lata de comida de uma forma completamente descontrolada e sabemos o que é ter fome.
 
"I am not a client, a customer, nor a service user. I am not a shirker, a scrounger, a beggar, nor a thief. I'm not a National Insurance Number or blip on a screen. I paid my dues, never a penny short, and proud to do so. I don't tug the forelock, but look my neighbour in the eye and help him if I can. I don't accept or seek charity. My name is Daniel Blake. I am a man, not a dog. As such, I demand my rights. I demand you treat me with respect. I, Daniel Blake, am a citizen, nothing more and nothing less."

Quando o cinema é uma arma...

Bom filme!





2 comentários:

  1. Comentámos essa cena à saída, é de cortar a vida e a respiração de qualquer mortal na sua noção de vidinha... acho que o problema é que até as pessoas já se fizeram sistema, aquelas que deviam complementar o sistema e o seu funcionamento, mas (quase) nenhuma foi humana...

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  2. Até que pontos elas se tornaram sistema porque ficámos todos cínicos por acharmos que só vive de ajudas do Estado quem não faz pela vida é que não sei.
    Sei é que devemos, sempre, proteger os mais frágeis se queremos ser Comunidade. ;)

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