quinta-feira, 20 de julho de 2017

Laranja Mecânica

(realizador: Stanley Kubrick)
Até onde estamos dispostos a defender o livre arbítrio?



Alex é sádico, violento e amoral. Retira prazer em provocar dor nos outros, passa os seus dias com o seu gangue, ingerindo drogas, espancando sem abrigo, roubando e violando mulheres. Cometer actos de violência é o que lhe dá prazer.
Preso, será sujeito a um tratamento experimental, sugerido pelo Estado, que visa controlar o seu comportamento agressivo. Forçado a assistir imagens tão violentas como aquelas que praticou, ao mesmo tempo que lhe administram um químico que provoca náuseas, sairá da prisão um “homem exemplar”, incapaz, não por escolha mas por condicionamento, de cometer tais actos. E incapaz de se defender…
Em liberdade, irá tropeçar em membros do seu antigo gangue e suas vítimas. A vingança contra ele será o mote. Como uma laranja mecânica aceitará os golpes, dando a outra face.
Mas sem voz ou poder de escolha, a sua única saída é uma tentativa de suicídio falhada.
Acorda, curado do tratamento e novamente livre para ser o psicopata que sempre foi.

Qualquer tentativa de condicionamento dos nossos instintos que não resulta de uma escolha livre, é, em si, o maior acto de violência que pode existir?

Alex é o narrador: é através dos seus olhos que vemos a sua história. E por isso, todos os actos, por mais sórdidos e abomináveis que sejam são belos: um espancamento é uma coreografia, uma violação um bailado.

 A resposta à pergunta inicial não é fácil, não é simples e não é desprovida de dúvida.

Bom filme (mesmo que provoque repugnância)!



6 comentários:

  1. A remoção do livre-arbítrio não destruirá a humanidade basilar de um indivíduo?
    Sou profundo admirador da obra de Kubrick e de como instiga reflexões sobre a desumanização. Porque abrandam os carros para espreitar um acidente rodoviário? Porque abrem os telejornais com imagens de atentados ou calamidades da natureza? Porque há tanta audiência para este espectáculo deplorável? Kubrick, mune-se da Sétima Arte para nos fulminar com uma constatação inquietante: a violência é eterna... e intrínseca ao Ser Humano.

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    1. Boa tarde, Eros
      Somos comandados por instintos, ainda que queiramos acreditar que as nossas acções resultam de uma qualquer racionalidade, resultante da evolução. Acho que o nosso fascínio pela violência reside aqui. É totalmente humano, porque é instintivo.
      Se pensarmos no outro extremo do espectro, o altruísmo, a abnegação também é uma resposta idêntica. Quem o faz retira prazer dessa acção. Acciona os centros no cérebro que dão a sensação de bem estar. E, também, nos permite a socialização. Mas digo que é, de certa forma, “egoísta”. Para si, por si.
      Queremos acreditar que a humanidade é razão e virtude mas somos feitos de impulsos. E pagamos o preço.

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  2. Gosto muito da obra de Kubrick, sempre usou a sua arte para demonstrar a escuridão de partes da mente do ser humano, sempre com mestria.

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    1. Boa tarde, Miguel
      Partilho da tua opinião. Só tenho uma objecção - o último, Eyes Wide Shut. Há algo demasiado cerebral, encenado para a temática que tem. Mas acho que ele só o faria desta forma. Paciência ;)

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    2. O EWS lida com algo mais banalizado na vida humana, mesmo que escondido, mais banalizado. Logo parece mais pensado que natural. Eu até gostei de partes amíude.

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    3. Até a Nicole sair de cena, estou com ele. Depois, deixa-me sozinha com o Tom e...

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