terça-feira, 8 de agosto de 2017

Algoritmo



O texto que a Isabel Pires publicou do Ricardo Romano sobre o Zeca Afonso começa mais ou menos assim  “porque é que estamos a ouvir música de comunistas?” e esta ideia de que não queremos, quer por escolha quer inconscientemente, ouvir aqueles que não partilham a nossa visão do mundo perturba-me. Sobretudo quando falamos de artistas. Não é esse um dos propósitos de qualquer criação artística? O de nos fazer ver o mundo de um modo diferente, fazer-nos vacilar e questionar o que consideramos absoluto.

 Li, há tempos um artigo que chamava a atenção para a forma como os algoritmos das redes sociais estão a reduzir o nosso campo de visão ao devolverem aquilo que ele atribuiu como sendo os temas, os interesses de que gostamos. Num tempo em que o acesso à informação é ilimitado, para além de haver muito “lixo”, o que nos chega é um espelho do que somos.  Fortalece a ideia de que o mundo  é exatamente como o vemos e que os outros pensam e são iguais a nós.

Li outro artigo, mais tarde, sobre a forma como o algoritmo do Google organizava a informação mais relevante e foi assustador: Google is not ‘just’ a platform. It frames, shapes and distorts how we see the world.

Se ainda por cima rejeitamos o pouco que nos chega, imediatamente, quando pressentimos que é discordante estaremos a caminhar para um mundo de intolerância quando o oposto deveria estar a acontecer?

Porque podemos não gostar da música do Zeca Afonso mas não porque o associamos ao Partido Comunista. A obra de qualquer artista deve ser apreciada, avaliada e discutida pelo seu valor intrínseco.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. ;) Uma boa discussão, regada com diferentes mas bons argumentos e saimos sempre todos mais ricos. Boa noite, Miguel.

      Eliminar
  2. Anouk, é agradável sabermos que aquilo em que de algum modo exploramos, provoca reflexão, discussão, troca de ideias. Obrigada pela referência!
    Por vários motivos, creio não estarmos a fazer muito pelo aumento da massa critica, já que se opta bastante por sentar no conforto do efeito espelho.
    Será que se anda a perder o hábito do confronto? Será que o confronto é temido pelo facto de haver dificuldade em lidar com ele e por isso se resvala facilmente para o conflito?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Isabel, obrigada eu por este e outros textos que vai colocando! Um dos principais conselhos/lições que o meu pai me deu foi a de que eu não tinha razão, tinha uma opinião. E essa opinião tinha que ser defendida sempre respeitando uma qualquer perspectiva contrária. Infelizmente, acho que a maior parte das pessoas parece ter mesmo dificuldade em lidar com o confronto e faz uma de duas coisas: descarta a outra perspectiva negando-lhe qualquer valor ou temendo o conflito, não alimenta a discussão (a ler no sentido da troca de ideias e não de briga).
      Acho que perdemos tanto em qualquer destes cenários. O espelho é tão mais confortável mas não nos acrescenta nada, não nos faz maiores!
      Contudo, acho que para haver um confronto saudável que não resvale em conflito as pessoas têm de aprender a discutir. E muitas parecem não o saber fazer. Ou confundem uma opinião discordante com uma apreciação negativa delas próprias.

      Eliminar