terça-feira, 5 de setembro de 2017

Carácter

Ainda me lembro do cheiro da sala de cuidados intensivos, o som do ventilador a trabalhar, o tubo que impedia que qualquer som da garganta se pudesse ouvir. A frase era, simplesmente “tudo bem?” que só consegui perceber à terceira vez que foi dita. Mais tarde, assimilar que o gesto de carinho feito no braço não estava a ser sentido. Apenas a face saberia que estava a ser tocada.

Para que isto acontecesse não foi preciso álcool, velocidade acima do limite ou uso do telemóvel. Apenas um carro nas mãos de um condutor inexperiente, com muitos amigos e gargalhadas e uma estrada em linha recta com um curva de 45 graus no meio. No fim desta curva, um destino mudou para sempre.

Nos primeiros dias, o prognóstico era muito reservado, jargão médico para “pode morrer amanhã”. Meses mais tarde, foi longa a espera para perceber se o diagnóstico inicial de tetraplegia poderia ser revertido com fisioterapia em Alcoitão. Percorrer os corredores da ala pediátrica deste hospital é uma experiência inesquecível.

Além do corte (parcial, felizmente) da espinal medula havia, também, um traumatismo craniano não detectado. Hoje, 60% da mobilidade foi recuperada. Mas isso não é suficiente para que andar se faça sem o apoio de alguém.

Ela foi e continua a ser uma das pessoas que mais admiro. Porquê? Porque o espírito dela, a tenacidade, o bom humor e o optimismo permanece igual. Sem hipocrisia, dizendo todos dias acordo desejando que aquele dia pudesse ser apagado. Mas se aconteceu, apesar do que aconteceu, vou viver. Ela é o meu super-herói. E a constante recordação de que a minha vida é tão fácil. E a noção permanente que enquanto se conduz não há nada mais importante do que o acto de conduzir.

Se há dúvidas, ora vejam:

Acha que consegue conduzir e enviar SMS?


6 comentários:

  1. Anouk, excepto o pensar em algo diferente para além da condução, enquanto conduzo não faço mais nada. Foi sempre um hábito que tive. Mesmo assim, já capotei um carro, dei três voltas lá dentro e destruí o veículo. Ainda hoje não encontro uma explicação para o que aconteceu, já que ia a velocidade reduzida e pelo que sei o veículo não apresentava irregularidades.
    Mas consolidei uma ideia: se assim, aparentemente do nada, tal aconteceu, pior seria se existissem descuidos.
    Bom post.

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    1. Bom dia, Isabel
      É um excelente hábito, focar na condução. Conduzimos quase todos os dias e não interiorizamos que é, provavelmente, das coisas mais perigosas que fazemos. E somos, por vezes, muito irresponsáveis.

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  2. É preciso garra para lutar e nunca desanimar para vencer! É preciso ter força de vontade e muita garra para poder triunfar sobre as adversidades que a vida nos impõe.

    Bom dia Anouk:))

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    1. Bom dia, Legionário
      Ela é tudo isso e muito mais. Não perdeu nada do que era, só vai um pouco mais devagar, diz a T.

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  3. fiquei arrepiada.
    zango-me tanto com as pessoas que conduzem e falam ao telefone...

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    1. Laura,
      As pessoas acham que conseguem fazer bem as duas coisas mas não fazem! Já é tão difícil fazer bem a primeira...

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