domingo, 17 de dezembro de 2017

Consoada



Sem significância religiosa, o que resta?

Dias passados em família, receitas transmitidas através de gerações, brindes com licores feitos ao longo do ano, conversas prolongadas até que o cansaço vença os últimos resistentes. Uma desculpa para trazer todos de volta a “casa”, mesmo que essa casa seja, para os mais novos, simbólica, já que ninguém nasceu ou viveu lá.

Os anos passam e são cada vez mais aqueles que partiram. Contudo, o meu olhar ainda os procura e vê no lugar que ocupavam naquele espaço. Ainda vejo a minha avó a vir da cozinha com um queijo fresco, feito nessa manhã, o sorriso terno do meu avô assim que entreabria a porta, o meu tio à cabeceira da mesa. E a minha bisavó, sentada à volta da braseira, numa cadeira pequenina.

Este ano, estas ausências estão a pesar mais do que em outros anos. Este ano não existirão crianças.

E a memória da minha avó velhinha, como carinhosamente, todos os seus bisnetos a chamavam está, na minha mente, mais presente.

Uma mulher do campo, que teve quatro filhos, forte, determinada, por vezes dura e intransigente. Uma mulher que ditou as regras e comandou as tropas, até ao fim. E ninguém contradizia. Para os mais novos ela foi avó e não mãe. Foi, apenas, amor, carinho, sorrisos e brincadeira. A outra faceta dela ficou camuflada.

Quando chegava ao Alentejo, em pequena, com os meus pais, a mesma pergunta era feita e a resposta era sempre a mesma.
- Quem queres ir ver primeiro?
- A avó velhinha.

Tinha um fascínio enorme por ela. Nos dias que passava lá, seguia-a por todo o lado e durante muitos anos era reconhecida através dela porque era sempre vista com ela de mão dada. Era a neta da Té Ana. Só mais tarde percebi qual era a base, o fundamento desta ligação quase umbilical. Até aos dois anos, momento em que os meus pais decidiram mudar-se para Abrantes, a minha avó velhinha cuidou de mim, durante a semana, quando a minha mãe ia trabalhar. Não esquecemos nada, apenas não sabemos que sabemos o que sabemos.

Não sei se recordo esta história porque me contaram ou porque o cérebro guardou este momento. A minha avó não sabia ler e escrever. Quando comecei a aprender e descobri que ela não sabia, terei achado que faria todo o sentido que ela aprendesse comigo. Fui buscar cadernos e lápis, numa noite de Natal, para a ensinar.
- A avó não sabe escrever.
- Não faz mal, vó, eu ensino-te.
- A avó é demasiado velha para aprender. É tarde demais.

Não desisti logo mas talvez ela tinha razão. Aquela capacidade já não lhe iria dar grandes frutos. Ela sabia outras coisas, muitas outras coisas que ela não me ensinou e que eu ainda não sei ou saberei. Não houve vontade minha e depois o tempo acabou.

Há que aproveitar todos os momentos que passamos juntos. Também com os mais velhos. Eles são os primeiros a partir quando o universo não nos troca as voltas. Em Dezembro do próximo ano, não sabemos quem vai lá estar.

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