sábado, 2 de dezembro de 2017

Emoção


Gazetilha


Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Este foi o poema que veio à memória - nem todos os artistas sobrevivem ao passar dos séculos mas mesmo na morte se percebe (um)a diferença.

4 comentários:

  1. Numa situação intensa não sabemos que dizer. Para isso é que há o "formalismo" do silêncio, traduzido num abraço de emoção.

    Boa tarde, Anouk:)

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    1. Boa tarde, Legionário ;)
      Por exemplo: é sempre uma alegria ouvir alguém falar de coisas que ama. Vou sentir falta do Acordo de Cavalheiros...

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  2. A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.

    A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
    O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
    O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
    Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
    Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

    Livro do desassossego - Fernando Pessoa

    Bom dia Anouk

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